2 de outubro de 2009

Intemporal


Ilustração para a Revista Mutante n.º 1, Maio de 2008. Pedro Neves é o autor do texto que acompanha este desenho.

Suspiro. Vento. O tempo passa. E passa mais depressa para os homens do que para as estrelas. As folhas abanam ao sabor do vento, os frutos caem no chão, as águas correm para o mar, as ondas batem na areia, as nuvens dissolvem-se no ar. O sol nasce. O sol põe-se. A noite chega. A lua aparece. As luzes acendem-se. A lua esconde-se. As luzes apagam-se. O sol nasce de novo. O tempo. A vida. A vida é amor. O amor é a vida. Amor verdadeiro. Suspiro. O tempo passa. Os amantes suspiram mas ninguém os ouve. O nevoeiro envolve a cidade de pedra, granítica, deserta. Os suspiros ecoam pela cidade surda. Querem dizer que há instantes que deviam ser eternos. Que a paixão devia voar, que há momentos que deviam congelar, parar, durar para sempre. Querem dizer que há instantes tão belos que não deveriam nunca começar para não terem de acabar. O beijo. A aproximação. A mão que dá a mão. A pele macia. O toque. A respiração. A ternura. Tranquila. Há instantes que deveriam ser eternos. Instantes que o tempo não devia deixar passar. Como em contos de fadas. Como em contos mágicos que fazem voar, rasgar as entranhas da terra com o olhar, abrindo-lhe fendas que não saram. Como uma ampulheta partida cujos grãos de areia fina se espalham pelo espaço. Dentro fica apenas ar, suspiros, vento, memórias, amor. Fora ficam as estrelas que têm mais tempo que o tempo.

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